Mártir da liberdade

Num momento em que o Chile vive explosões de revolta popular, torna-se oportuno o documentário Massacre no estádio, pois mostra o germe do atual estado de coisas naquele país.

Disponível na Netflix, o filme do diretor Bent-Jorgen Perlmutt aborda a história do cantor Víctor Jara, mártir do golpe de setembro de 1973 que derrubou o governo socialista de Salvador Allende, e a busca de justiça por seu assassinato.

Víctor Jara cantava as histórias que ouvia diretamente do povo. Uma de suas canções mais famosas, “Te recuerdo Amanda”, correu o mundo. Era considerado uma mistura de Bob Dylan com Martin Luther King. Sua arte engajada, que denunciava as difíceis condições de vida dos pobres chilenos, atraiu a fúria dos militares. “Uma canção de Víctor Jara era mais perigosa do que 100 metralhadoras”, diz um dos entrevistados.

O filme contextualiza aquele período através de imagens raras que mostram a vida familiar do artista ao lado da companheira inglesa Joan Jara e as duas filhas, entrelaçadas aos anseios de esperança com o novo governo. Os inúmeros depoimentos de ex-amigos e sobreviventes compõem um retrato do símbolo e sua época.

Mas quem ocupa mesmo o centro da narrativa é a viúva Joan Jara, vista ao longo das últimas quatro décadas, empenhada numa luta incansável para identificar e levar a julgamento os responsáveis pela morte do companheiro.

Enquanto o cerco se fecha em torno do principal suspeito do crime, uma cortina de mentiras e silêncio se ergue, evidenciando uma estratégia comum aos remanescentes dos regimes armados que varreram o Cone Sul nos anos 1970. Muitos dos militares que serviram ao golpe se evadiram para os Estados Unidos, como uma forma de obter imunidade.

Já nonagenária, Joan Jara esbarra nesses subterfúgios que a impedem de consumar a justiça necessária.

É curioso observar como nas manifestações da opinião pública contraria ao governo de Allende, em 1973, prevalecia o mesmo discurso ostentado hoje pela repressão no Chile. Os defensores da justiça social eram tachados de delinquentes e comunistas. A eterna – e amarga – repetição da História.

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